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A pandemia da Covid-19 forçou literalmente a retirada de circulação de grande parte da população idosa das ruas e do comércio em geral. Por outro lado, estar em casa com acesso mais frequente às novas tecnologias, especialmente os smartphones, permitiu a esta mesma população entrar na era digital para executar serviços que antes só funcionavam presencialmente. O relacionamento com instituições financeiras é um bom exemplo desta mudança.
O isolamento social forçou idosos a aprenderem a usar ferramentas digitais por necessidade de sobrevivência. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, desenvolvida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, o percentual de idosos (60+ anos) que utilizam a internet saltou de 24,7% em 2016 para 66,0% em 2023, chegando perto de 70% em 2024. Quase a totalidade dos acessos (cerca de 98%) é feita via celulares.
Junto com as facilidades do acesso a este universo antes inexplorado, vieram o medo de golpes e as dificuldades no uso de alguns aplicativos e novas tecnologias. A mesma pesquisa mostra que, se por um lado o Pix ajudou a inserir o conceito de utilização do celular para transações bancárias na nova rotina, por outro deixou 28% dos ouvidos com receio de fraudes e golpes.
Outros 32% dizem que ainda têm dificuldades na utilização dos recursos. Aí surge a dependência de terceiros (ou o chamado “usuário assistido”), apontada no mesmo levantamento como a principal barreira a ser vencida, especialmente pelos idosos. Gerenciamento de senhas (17% dizem acabar tendo as suas bloqueadas por erros de digitação), dificuldades biológicas (visão e/ou motricidade) e o fechamento de agências bancárias físicas (ou a inexistência delas, no caso das fintechs).
As cooperativas de crédito têm se apresentado aos potenciais clientes como opções mais acessíveis e diferentes dos bancos tradicionais (na verdade bancos e cooperativas são instituições diferentes). As agências e atendimentos mais humanizados atraem o interesse de quem busca relações mais pessoais, após um certo exagero na utilização da tecnologia durante os anos que se seguiram à pandemia.
De acordo com o Sistema Ocepar (Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná), em apenas um ano o número de associados a cooperativas de crédito aumentou 10,8%, saltando de 3.706.142 em 2024 para 4.106.842 em 2025, no Paraná. Em algumas cidades do estado, a cooperativa de crédito é a única alternativa bancária para a população.
Um exemplo é a cooperativa Sicredi Campos Gerais e Grande Curitiba, que alcançou neste ano 235.288 associados (dado de abril de 2026). Em 59 das 342 cidades com presença do Sicredi no Paraná, a instituição é a única opção financeira disponível.
Diferentemente das instituições tradicionais, o cooperativismo se estrutura na lógica de pertencimento, em que o associado também é dono e participa das decisões.
Essa relação trouxe a aposentada Maria Thereza Heidegger Martins para a cooperativa há 15 anos. Ela ingressou na cooperativa no mesmo período em que decidiu realizar um antigo projeto pessoal: viajar pelo mundo. Desde então, conheceu países como Itália, Espanha, Canadá, Alemanha e Suíça, além de destinos pelo Brasil.
Hoje, aos 78 anos, utiliza os benefícios da cooperativa para viabilizar as viagens. “Uso meu cartão de crédito, acumulo milhas e, sempre que preciso, também fecho o seguro pela agência”, conta. Para ela, o diferencial está também na distribuição dos resultados entre os associados, que garante um retorno financeiro adicional ao longo do tempo.
Para a empreendedora Stephanie Vitória Gouvea, o cooperativismo se estende ao ambiente de negócios. Formada em Jornalismo, ela abriu a própria assessoria e mentoria em comunicação e infoprodutos e, há três anos, escolheu a cooperativa para organizar a gestão financeira da empresa.
Com o tempo, parte dos próprios clientes também se tornou associada e vice-versa. “A cooperativa vai além do crédito ou do bônus. Ela faz parte do nosso dia a dia, dos nossos compromissos e do networking da empresa”, afirma.
Na experiência do advogado Jefferson Grabovski, que administra o próprio escritório e uma indústria, a proximidade com a instituição é o principal chamariz. Associado há 12 anos, ele encontrou no cooperativismo uma alternativa ao modelo tradicional, marcado pela redução de agências e do atendimento personalizado.
Na contramão do movimento das demais instituições financeiras, a cooperativa mantém a expansão física. Só neste ano, estão previstas sete novas unidades, três delas em Curitiba, nos bairros Sítio Cercado, Fazendinha e Anita Garibaldi. A presença se traduz em oportunidade.
A proximidade e a disponibilidade de ter essa troca permitem a Jefferson facilidade em tomar decisões e organizar o futuro de suas empresas. “A cooperativa está ali para sentir a dor do cooperado e tentar oferecer ajuda. Se eu preciso de recursos, ligo para o meu gerente e, se não no mesmo dia, no outro está creditado na minha conta”, relata Jefferson.
Para o presidente da cooperativa, Marcio Zwierewicz, o principal diferencial do modelo está nessa relação. “Ter tecnologia e um bom aplicativo é trivial. Isso se equipara [aos bancos tradicionais], mas o ser humano continua fazendo a diferença”, explica.

Com esse objetivo, a cooperativa mantém, em média, um colaborador para cada 150 associados e promove assembleias anuais para prestação de contas e definição de prioridades. Em Curitiba, 5.484 pessoas participaram dos encontros neste ano. No Paraná, o número ultrapassa 17 mil.
Mais do que um rito institucional, as assembleias são parte do direcionamento dos investimentos. “Na gestão ou no conselho, podemos pensar que a situação A, B ou C é mais relevante, mas quando ouvimos o associado, vemos que outras coisas são importantes. Ouvi-lo ajuda na construção do planejamento da cooperativa”, conta.
Em 2026, a cooperativa vai distribuir mais de R$ 100 milhões em resultados, sendo R$ 59 milhões em juros ao capital e outros R$ 41 milhões após deliberação dos associados. Para quem integra o sistema, esse processo amplia a compreensão sobre o próprio uso do dinheiro.
“Participar é entender como funcionam as diretrizes do nosso dinheiro. Quando entendemos para qual caminho nosso dinheiro está seguindo e qual o intuito de utilizar as bonificações, consequentemente, entendemos parte desse mundo financeiro”, completa a comunicadora Stephanie.

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