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Os juros futuros encerraram o pregão desta quinta-feira (23) em alta firme que os levou aos maiores níveis de fechamento em um mês.
A ampla pressão sobre a renda fixa doméstica refletiu o comportamento das taxas ao redor do mundo em meio à escalada das tensões no Oriente Médio e o salto dos preços do petróleo, que voltaram ao patamar de US$ 100 por barril pela primeira vez desde maio. Nesse contexto, os juros futuros não subiram apenas pela piora da percepção de risco dos investidores, mas também pela perspectiva de uma política monetária mais dura por conta do impacto que um petróleo mais caro pode ter sobre a inflação.
Com isso, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2027 subiu de 13,955%, do ajuste da véspera, para 14,045%; a do DI de janeiro de 2028 avançou de 14,22% a 14,41%; a do DI de janeiro de 2029 anotou forte alta de 14,50% para 14,705% e a do DI de janeiro de 2031 aumentou de 14,675% a 14,85%.
Nos Estados Unidos, os rendimentos dos Treasuries também subiram em toda a extensão da curva a termo americana: a taxa da T-note de dois anos passou de 4,302% a 4,358%; a da T-note de dez anos avançou de 4,668% para 4,701% e a do T-bond de 30 anos teve alta de 5,153% a 5,169%.
Os mercados globais de renda fixa operaram bastante pressionados pelo quadro geopolítico desde o início dos negócios. A entrada de novos atores, além de Estados Unidos e Irã, na guerra no Oriente Médio e as ameaças de retaliação do presidente americano, Donald Trump, contra ataques do grupo houthi a navios sauditas pioraram a percepção de risco dos investidores. Além disso, um petróleo a US$ 100 por barril impacta as expectativas de inflação do mercado e levanta questionamentos sobre qual será a postura dos bancos centrais em face do choque nos preços de energia.
Por ora, no Brasil, a expectativa majoritária segue sendo de que o Banco Central vai reduzir a Selic de 14,25% para 14% em 5 de agosto. No entanto, o estresse atual já reduz a chance de que isso ocorra – de 79% para 66%, de acordo com o mercado de opções de Copom. Já a probabilidade de que a Selic se mantenha estável no mês que vem subiu de 25% para 32% de ontem para hoje.
Já em relação à reunião de setembro do Copom, o mercado passou a ver uma chance maior de manutenção da Selic, com 57% de probabilidade, do que de outro corte de 0,25 ponto, cuja precificação reduziu para 37%. Ontem, o mercado se dividia entre os dois cenários, com chances de 45% e 46%, respectivamente.
Para Ian Lima, gestor de renda fixa ativa da Inter Asset, o espaço para cortes, que já era curto por conta da deterioração das expectativas de inflação, diminui ainda mais com o petróleo voltando à marca de US$ 100. Ainda que a commodity volte a operar nos níveis anteriores ao episódio mais recente de estresse com o cenário geopolítico, a tendência é de que o Copom tenha pouca condição de prosseguir com a flexibilização da Selic para além de agosto.
“O BC pode dar um corte de 0,25 ‘tranquilo’ ou um corte difícil de justificar, com pouco espaço adicional à frente. A confiança no BC foi um pouco abalada pela última decisão”, diz o executivo, para quem a decisão de seguir reduzindo os juros não é óbvia e deve ser deliberada de acordo com as condições macroeconômicas em cada uma das próximas reuniões do Copom.
Lima aponta que a postura mais conservadora dos principais bancos centrais do mundo, como o Federal Reserve (Fed), o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Inglaterra (BoE), também dificulta que a Selic siga caindo. “É difícil imaginar que os BCs vão vir com um discurso ‘dove’ [favorável ao afrouxamento monetário] com essa camada a mais de risco geopolítico. E não é ideal que as políticas monetárias andem em direções opostas”, avalia.
Mas, ainda que a guerra e a reação da política monetária expliquem de forma mais objetiva o estresse somente nos juros de curto e médio prazo, as taxas de longo prazo têm acompanhado o estresse do restante da curva. Para Lima, isso se dá por fatores como o mal-estar do mercado com a política fiscal frouxa ao redor do mundo e a ausência de liquidez em meio aos investimentos em empresas ligadas à inteligência artificial.
“A liquidez está reduzida, a IA está captando muito recurso e os governos precisam se financiar, mas o bolso [do investidor] é um só”, diz ele. Nesse contexto, o ímpeto do mercado passa a ser o de reduzir risco via “duration”, o que pune a ponta longa das curvas de juros, algo que ocorre não apenas no Brasil e nos mercados emergentes, mas também em geografias como Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido, explica Lima.
Diante desse contexto de amplo estresse e aversão a risco nos mercados, o Tesouro Nacional optou por ofertar lotes pequenos de títulos prefixados no leilão de hoje, que totalizaram apenas 450 mil papéis. Segundo Lima, a prática é conhecida como “cancelamento branco” do leilão e serve, justamente, para evitar adicionar mais volatilidade às taxas em um ambiente de aversão a risco.
“Em condições normais, diferente das NTN-Bs (títulos atrelados à inflação), o Tesouro tem conseguido colocar prefixados. Mas, hoje, por conta da condição dos mercados de renda fixa, optou por essa oferta pequena”, afirma Lima.
Fonte do Artigo
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