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Camboja: Brasileiro morto expõe suspeita de tráfico humano - 25/08/2026 - Mundo

Camboja: Brasileiro morto expõe suspeita de tráfico humano – 25/08/2026 – Mundo

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Naquele dia, uma manhã do início de agosto, os funcionários da funerária Evergreen, localizada nos fundos de um templo budista em Phnom Penh, capital do Camboja, preparavam-se para iniciar cremações.

O ritual era burocrático e religioso. Enquanto um policial preenchia os dados de um dos mortos em uma ficha, o ambiente estava preparado com um altar dourado que continha incensos, alimentos e fotos. Em dia de cremação, disseram os funcionários, é sempre assim.

É também uma questão de praticidade. Como o espaço armazena corpos de estrangeiros e a repatriação é um serviço de alto custo, famílias optam pelo traslado das cinzas. A opção foi oferecida aos pais do brasileiro Gabriel Oliveira, 24, que morreu no país em julho de 2025. A professora Leniêr Quirino, 54, e o veterinário Daniel de Araújo Vieira, 55, recusaram a alternativa. Eles precisavam ter certeza de que se tratava do filho.

O local abrigou o corpo de Gabriel, que morreu em circunstâncias não esclarecidas, por cerca de um ano, até que fosse repatriado pela família. A empresa que supostamente o teria empregado afirmou por mensagens à família que a morte foi decorrente da explosão de um micro-ondas, mas não apresentou nada que sustentasse essa afirmação.

A tese principal é que ele tenha sido alvo de tráfico humano no Camboja, país que se tornou o principal destino de vítimas brasileiras registradas sob o Protocolo Operativo Padrão de Atendimento em 2025, segundo o Ministério da Justiça.

A vontade de trabalhar no exterior, ganhar mais dinheiro e ajudar os pais com a casa própria levou Gabriel a aceitar uma proposta de trabalho em Bancoc, na Tailândia. Com experiência em tecnologia da informação e formação técnica na área, recebeu uma oferta que parecia das boas. Com hospedagem, alimentação e passagens aéreas inclusas, teria de se preocupar com pouco.

Para os pais, tudo aconteceu muito rápido. Em poucos dias, Gabriel avisou que iria e deixou Igarapé, em Minas Gerais, onde morava com a família. O desembarque foi na capital tailandesa, mas o jovem logo entrou numa van e foi levado para uma cidade do Camboja que Quirino e Vieira até hoje não sabem qual é.

Após a chegada, ele manteve contato constante com o pai, a mãe e a irmã, mas de forma superficial. As conversas por vídeo ocorriam sempre onde Gabriel dormia, apesar dos pedidos para que ele apresentasse um pouco da cidade em que vivia. “Ele falava que tinha várias pessoas junto, não dava muitos detalhes, mas sempre falou que estava tudo bem”, diz a mãe.

O último contato entre eles ocorreu em 5 de julho de 2025, data que ficou marcada na família. Dez dias depois, receberam do Itamaraty a notícia de que o filho havia morrido. “Houve várias versões. Falaram que a polícia achou ele, depois que ele foi socorrido e levado para o hospital”, diz o pai.

A forma de aliciamento, o pacote de benefícios oferecidos, o deslocamento da Tailândia ao Camboja, os contatos superficiais com a família e a morte suspeita são alguns dos fatores que fazem o caso ser tratado como tráfico de pessoas.

Após a confirmação da morte, o entrave se tornou o dinheiro para a repatriação. Buscaram a Justiça para obrigar o governo a arcar com os custos, mas o pedido foi negado. O traslado foi pago com a ajuda de uma vaquinha virtual, que arrecadou cerca de R$ 52 mil.

À Folha o Itamaraty disse que comunicou a morte à família, prestou assistência consular e ajudou no processo de repatriação nos termos da legislação brasileira.

O corpo do jovem chegou a São Paulo em julho de 2026, um ano após a notícia da morte. O auxílio governamental, solicitado à Secretaria-Geral da Presidência pela Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), deu-se por meio de assistência à família.

Lívia Miraglia, professora de direito e coordenadora da clínica, diz que o caso foi um dos mais difíceis de sua carreira. Ao contrário de outros, em que a expectativa do reencontro anda ao lado das dificuldades, neste o melhor desfecho ainda envolveria dor. “No caso de Gabriel, ‘dar certo’ significava trazer o corpo de um menino de 20 e poucos anos para ser enterrado no Brasil. Isso mexeu muito comigo”, diz.

Enquanto lidava com o traslado de Gabriel, a professora atuava também no caso da arquiteta Daniela Marys, 37, presa na cadeia de Banteay Meanchey, em Sisophon, também no Camboja, após se tornar vítima de tráfico humano.

Por telefone, Daniela contou à Folha que o local está superlotado, com 130 pessoas ante as 63 de quando havia chegado. As regras também foram endurecidas após tentativa de fuga de duas mulheres, fazendo com que a maioria das detentas seja obrigada a ficar apenas no quarto.

Um buraco no chão, como uma fossa, serve como vaso sanitário a todas. O banho é de caneca no tanque, onde as presas também lavam a louça. Tudo o que é oferecido, como alimentação e itens de higiene pessoal, é pago por ela com a ajuda da família.

“É tudo muito complicado, tudo muito demorado. Eu tenho mais oito meses ainda [de pena]. É uma vida. Para quem está aqui é uma vida”, diz ela.

Natural de Belo Horizonte, Daniela foi presa após uma batida policial que encontrou drogas no banheiro do quarto do complexo de golpes onde ela foi mantida, em Poipet, cidade conhecida pelo histórico de tráfico humano. Ela argumenta que os três comprimidos foram plantados após ela se recusar a fazer parte do esquema criminoso.

A localização da cidade, na fronteira com a Tailândia, oferece um ecossistema que favoreceu a instalação da rede criminosa. O país vizinho é uma das portas de entrada de vítimas de tráfico humano que chegam ao Camboja, e a região tem rotas que viabilizam a travessia ilegal.

Poipet é também famosa pela presença de cassinos voltados ao público tailandês, o que fez com que as organizações criminosas se aproveitassem da infraestrutura dos estabelecimentos para instalar complexos de golpes. O fechamento da fronteira com a Tailândia na pandemia foi o ponto de virada, quando as casas de apostas passaram a ser usadas para operações online.

Daniela foi a primeira brasileira a ser levada pelos criminosos para a central em uma área remota da cidade. Poucos dias depois, chegou o restante da equipe. Começaram, então, segundo seu relato, as operações de tradução e atendimento ao cliente para as quais ela foi contratada.

Durante o treinamento, porém, Daniela conta ter descoberto que seria parte do golpe da Polícia Federal, no qual teria de se passar por uma policial e avisar a vítima de que ela era alvo de uma investigação —uma farsa.

“Quando eu falei que eu não ia fazer, para eles foi como uma afronta”, diz ela. “É abuso mental mesmo, de você ficar assim: ‘O que eles vão fazer comigo?’. Porque eles te colocam medo, medo do que pode acontecer se você não trabalhar para eles, não fizer o que eles mandam.”

Antes de receber a notícia de que ela havia sido presa, a família já percebia que havia algo de errado. A irmã, Lorena Costa Oliveira, notava que as interações não eram espontâneas.

“A gente começou a achar muito estranho porque toda vez que ela ligava, parecia que ela estava olhando para baixo, dava a sensação de que ela estava sendo vigiada o tempo todo. Ela não falava em tom natural. Parecia que ela estava sendo coagida”, diz.

Daniela foi sentenciada a dois anos e meio de prisão, mas teve a pena reduzida em seis meses após recurso. A expectativa é de que deixe a cadeia em março de 2027. Há ainda a esperança de que o pedido de transferência de presos, para que ela cumpra o restante da pena no Brasil, seja atendido.

O Itamaraty afirma que acompanha o caso, prestando assistência a ela e aos familiares, monitorando todas as audiências judiciais e realizando visitas.

Ainda que a longa espera seja um fardo, a estabilidade do caso e a previsão de saída trazem conforto para ela e para sua família. “Apesar desse desespero de quase um ano e meio em que a Dani está presa, a gente acredita que, sim, ela teve um livramento. Poderia ser pior e poderia ser irreversível”, afirma sua irmã.

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fabioaugusto
REDAÇÃO: UBIRATÃ ONLINE - FÁBIO AUGUSTO CELESTINO

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