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Milhares de mulheres convivem diariamente com dores nas pernas, inchaço persistente, sensibilidade aumentada e manchas roxas na pele, sem saber exatamente a causa desses sintomas. Muitas delas têm lipedema, uma doença crônica caracterizada pela deposição desproporcional de gordura, principalmente em braços e pernas — poupando mãos e pés —, que pode causar sensação constante de peso, rigidez, alterações na pele e limitação da mobilidade.
Embora descrito há décadas, o lipedema só foi oficialmente reconhecido como uma doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019. Em 2022, passou a integrar a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), cuja implementação oficial está prevista para 2027. No Brasil, ainda vigora o CID-10, o que, segundo Aline Simplício, cirurgiã vascular especialista em lipedema, contribui para o subdiagnóstico e para abordagens terapêuticas inadequadas.
Abaixo, a médica lista 5 ações práticas que podem ajudar a controlar os sintomas da doença no dia a dia e melhorar a qualidade de vida:
Uma dieta balanceada pode fazer diferença no controle dos sintomas. Priorize alimentos frescos, como frutas, legumes e vegetais, que possuem ação anti-inflamatória natural e ajudam a reduzir o inchaço. Evite alimentos ultraprocessados e com alto teor de sódio, pois podem agravar a sensação de peso e retenção. “A alimentação também influencia a composição do tecido adiposo e a resposta inflamatória do corpo, fatores importantes no lipedema”, explica Aline Simplício.
Movimentar o corpo diariamente é essencial. Caminhadas, natação, bicicleta ou exercícios de resistência ajudam a estimular a circulação sanguínea e o retorno venoso e linfático. Atividades que fortalecem a musculatura das pernas também reduzem a sensação de peso e o desconforto típico do lipedema.
Meias de compressão específicas para lipedema podem aliviar sintomas como dor, cansaço e inchaço. “Elas oferecem suporte aos tecidos afetados e melhoram o retorno venoso e linfático. É importante que a indicação e o tipo de meia sejam definidos por um especialista, o médico cirurgião vascular, pois existem diferenças entre os modelos usados para outras condições de edema”, explica Aline Simplício.
Terapias complementares, como a drenagem linfática manual, feita por fisioterapeutas, podem ajudar a reduzir a sensação de peso e a melhorar a circulação nos membros. Esses cuidados associados a exercícios e compressão reforçam a resposta do corpo e podem reduzir sintomas desconfortáveis no dia a dia.
O lipedema afeta diretamente a autoestima e a imagem corporal, pois muitas vezes altera a forma e o volume dos membros de maneira desproporcional. O acompanhamento psicológico pode ser um aliado fundamental para lidar com o impacto emocional da condição, fomentar a adesão ao tratamento e fortalecer a relação com o próprio corpo.
“O controle do lipedema costuma exigir uma abordagem multidisciplinar. Além do acompanhamento com angiologista ou cirurgião vascular, o tratamento pode envolver nutricionistas, endocrinologistas, fisioterapeutas e, em alguns casos, cirurgiões plásticos, garantindo um cuidado mais completo e eficaz”, finaliza Aline Simplício.
Apesar de afetar aproximadamente 12,3% das mulheres brasileiras, o lipedema ainda é amplamente subdiagnosticado. Um dos principais motivos sempre foi a ausência de critérios objetivos que permitissem sua identificação por meio de exames de imagem. Esse cenário começa a mudar com a publicação de um estudo brasileiro que estabelece padrões teciduais específicos associados à doença, possibilitando, pela primeira vez, a definição de critérios diagnósticos por imagem.
O trabalho, publicado no Journal of Biomedical Science and Engineering sob o título The Challenge of a Qualitative Ultrasonographic Classification in Lipedema, analisou exames de ultrassonografia realizados em 34 pacientes encaminhadas para avaliação radiológica. A partir dessas observações, os pesquisadores conseguiram identificar características específicas do tecido adiposo relacionadas ao lipedema, preenchendo uma lacuna histórica na prática médica.
Até então, exames como ultrassonografia, ressonância magnética e densitometria eram utilizados apenas para descartar outras causas dos sintomas, como trombose ou linfedema. “O diagnóstico era essencialmente clínico, baseado na avaliação médica e no relato da paciente”, explica Aline Simplício. “A falta de marcadores objetivos contribuía para confusões frequentes com obesidade ou retenção de líquidos, atrasando o tratamento adequado”.
Por Andressa Marques