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Ao fim de 2022, brasileiros seguiam normalmente com suas vidas sem saber que em Brasília, em reuniões a portas fechadas, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) buscava convencer os comandantes das Forças Armadas a embarcar em um golpe e reverter a vitória de Lula (PT) nas eleições de outubro. Ex-comandante da Força Aérea Brasileira, Carlos Baptista Júnior conta bastidores desses encontros em seu novo livro, “Eu disse não – Uma trincheira antigolpista”, que será lançado no próximo mês.
O brigadeiro, já na reserva, relata uma série de momentos ao longo da gestão Bolsonaro em que ficou desconfortável diante da tentativa de instrumentalização das Forças Armadas para ganhos políticos. Baptista Júnior afirma que, em um dos encontros após a derrota, o ex-presidente disse a ele: “BJ, eu já te dei dois cartões amarelos”.
Em entrevista por videoconferência à Folha, Baptista Júnior diz que o risco de golpe foi iminente e que temia alguma iniciativa no Exército que não estivesse alinhada à postura legalista do general Freire Gomes. Ele nega que tenha havido omissão dos comandantes e afirma que protestos golpistas em frente aos quartéis não foram dispersados para “evitar derramamento de sangue”.
O brigadeiro disse que votou em Bolsonaro em 2022 por entender que a anulação das condenações de Lula antes das eleições representou uma quebra do Estado democrático de Direito. Ele se negou a responder se a condenação de Bolsonaro foi necessária. “Esse é um problema do Judiciário e do mundo político, né?”.
O sr. considerou em algum momento que havia um risco iminente de golpe?
Achei. As Forças Armadas são muito grandes. Eu não sabia qual era a posição do almirantado. Eu sabia a posição do almirante Garnier [comandante da Marinha e, segundo ele, favorável ao golpe], a posição do Alto Comando da Aeronáutica, mas as pressões foram muito grandes em cima de todos os comandantes militares. Eu temia por uma ruptura entre tropas, ou seja, alguma iniciativa que não estivesse alinhada com a decisão do general Freire Gomes, principalmente, porque o Exército tem uma capilaridade muito grande.
O Exército não dispersou os protestos golpistas que se espalhavam em frente dos quartéis. E os comandantes das Forças publicaram uma nota condenando eventuais excessos dos manifestantes, mas fazendo críticas indiretas ao Judiciário. Por que os srs. não foram mais firmes naquele momento? Por que não acabaram com qualquer dúvida sobre a possibilidade de um golpe?
Nós demos diversas demonstrações de que não iríamos apoiar o golpe. A nota foi no dia 11 de novembro. Foi no auge do estresse. Foram diversas e cansativas reuniões tentando estudar uma maneira de um estado de exceção para não dar posse ao presidente eleito, sem que estivessem presentes os pressupostos básicos, seja para uma GLO [Garantia da Lei e da Ordem], para o estado de defesa, para o estado de sítio.
Tínhamos informações de que poderiam tirar aquelas pessoas à força. Iria ter um mar de sangue lá. O objetivo foi evitar um derramamento de sangue, até porque nós sabíamos que já estava com uma probabilidade decrescente de pessoas, de mobilização.
Nós achamos que a nota estava no tom adequado para dizer “pode fazer manifestação pacífica”. Não é para quebrar nada, não é para fazer arruaça. E falamos para todos os lados: “Olha, eu acho que está na hora de todo mundo jogar o jogo da legalidade”.
Surpreende o sr. que agora, enquanto candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro coloque em xeque a lisura do processo eleitoral, repetindo o pai?
Não tenho dúvida. O populismo exige antes de mais nada a mobilização dos seus eleitores. É um erro do Flávio levantar esse aspecto. É reviver um problema que a sociedade discorda. O presidente Lula a mesma coisa, essa bandeira de soberania, de reduzir a relação diplomática com os Estados Unidos… Eu acho que são ferramentas perigosas para o processo eleitoral de uma sociedade já não bem informada, já muito calcificada em suas posições.
O sr. reclama no livro de ter recebido o rótulo de “o mais bolsonarista dos comandantes”. O sr. nunca se considerou bolsonarista?
Me considerei. Em primeiro lugar eu achei que o cancelamento da ação que levou Lula à cadeia era uma quebra do Estado democrático de Direito. Por outro lado, também achava que nós não tínhamos um candidato ponderado. E nós vínhamos de uma necessidade antissistema, com Lava Jato, com petrolão, o povo queria mudança. Eu não fui o mais bolsonarista, mas votei no presidente Bolsonaro em 2018, por achar que a gente estava precisando de um banho de liberalismo, de liberdade econômica, de valores.
Em 2022 o sr. votou nele também?
Também.
O sr. disse que a anulação das condenações de Lula foi uma quebra do Estado democrático de Direito. Mas em 2022 já estava claro que Bolsonaro queria subvertê-lo. Ainda assim, o sr. achou que seria menos danoso votar nele?
Eu não tinha a certeza que você está dizendo, de que, se ele fosse eleito, iria subverter ou se tornar um ditador. Eu não tinha essa visão. Eu acho que nós temos que sair desse círculo vicioso. Nós estamos escolhendo o que tem menos rejeição. Estamos escolhendo candidatos que não apresentam seus planos, que não sabemos o que querem.
Durante o governo Bolsonaro, o sr. curtia nas redes sociais mensagens de apoio ao ex-presidente ou críticas à esquerda. O sr. ainda avalia que essa postura foi adequada?
Em primeiro lugar, essas interpretações vêm de uma ferramenta que havia no Twitter de identificar quem curtia todas as mensagens. Isso foi tão danoso que o Twitter cancelou essa ferramenta. As pessoas queriam interpretar por que eu curti. Eu poderia estar curtindo pela pessoa me responder, apenas por isso. Eu poderia estar curtindo pela pessoa estar se comprometendo a discutir um assunto. Se fosse hoje, talvez eu não fosse curtir, mas eu tenho que ter liberdade para fazer isso. Eu tomava muito cuidado como comandante.
O sr. já considerou se fatores como esse endosso nas redes sociais, a nota que o sr. assinou em repúdio ao senador Omar Aziz [durante a CPI da Covid], ou uma certa proximidade mais informal com o presidente em momentos de crise institucional, como em um churrasco que o sr. narra no livro, podem ter contribuído para Bolsonaro acreditar que as Forças Armadas poderiam embarcar [no golpe]?
Eu nunca dei essa semente para o presidente ter alguma ideia que eu embarcaria com ele. Isso eu estou muito tranquilo. Eu nunca chamei o presidente Jair Bolsonaro de você. Eu tinha uma relação institucional. Churrasco, essas coisas, aqui em Brasília nós temos eventos públicos que não querem dizer apoio a nenhuma quebra da lei.
Não tenho o menor arrependimento do que eu fiz. Nem de participar com ele. Fui um comandante de Força e um subordinado leal a ele em todas as tarefas que achava que deveria.
O sr. avalia que a pena do ex-presidente foi justa?
Me parece que dos cinco crimes aos quais eles foram julgados e condenados, dois são muito próximos. Isso vale tanto para o núcleo como [para] os [condenados] do 8 de Janeiro. Acho que nós temos aí pela frente uma possibilidade de uma revisão dessas penas.
Mas a condenação do ex-presidente o sr. acha necessária?
Isso deixa para o Judiciário resolver, né?
Já resolveu, mas qual a avaliação do sr.?
Esse é um problema do Judiciário e do mundo político, né?
O sr. adota a posição de que os militares não formam um bloco monolítico. Mas, no fim, o STF condenou mais de 10 militares da ativa e outros da reserva por envolvimento na tentativa de golpe. Como romper com a tradição de interferência das Forças Armadas na política?
Eu acho que isso vem sendo feito. A minha geração, que nasceu durante a década de 1960, por exemplo, não me parece disposta a ter para si essa responsabilidade sobre o Brasil, sobre o desenvolvimento, ou seja, ser o ator principal. Acho que primeiro [é preciso] conhecer a história. Estudar e levar todo mundo a saber que não tem quebra da democracia por atalho. Logicamente todos têm que estar dispostos a cooperar para isso. Às vezes no Brasil parece que tem gente que não está disposta.
Fonte do Artigo
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