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As IFRS (International Financial Reporting Standards) formam um dos principais referenciais internacionais para a elaboração das demonstrações financeiras e são adotadas em mais de 140 jurisdições. No Brasil, o processo de convergência começou com a Lei 11.638/2007 e avançou com a adoção dos pronunciamentos emitidos pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC).
Mais do que substituir regras antigas por novas, a contabilidade em IFRS muda a forma como a realidade econômica de uma empresa é reconhecida, mensurada e apresentada nas demonstrações financeiras.
Na prática, isso pode alterar ativos, passivos, receitas, despesas e indicadores importantes para investidores, credores e gestores. Os exemplos a seguir ajudam a entender como essas mudanças aparecem no dia a dia.
Um dos princípios fundamentais das IFRS é a primazia da essência econômica sobre a forma jurídica. Em outras palavras, o registro contábil deve representar, na medida aplicável, os efeitos econômicos de uma operação, e não apenas reproduzir a estrutura formal de um contrato.
Essa abordagem aumenta a comparabilidade entre empresas e mercados. Um investidor em Londres, por exemplo, pode analisar as demonstrações financeiras de uma varejista brasileira utilizando princípios semelhantes aos aplicados na avaliação de uma concorrente europeia.
Para as empresas, isso pode facilitar a comunicação com investidores, instituições financeiras e parceiros internacionais. Por outro lado, as IFRS também exigem maior julgamento profissional, documentação das premissas utilizadas e informações mais detalhadas nas notas explicativas.
Imagine uma rede varejista com 50 lojas alugadas em shopping centers, com contratos de cinco anos.
Antes da adoção da IFRS 16 (CPC 06 R2), os pagamentos de muitos contratos de aluguel eram reconhecidos predominantemente como despesas ao longo do período de utilização do imóvel.
Com a norma, salvo as exceções previstas, o arrendatário reconhece no balanço um ativo de direito de uso e um passivo de arrendamento, calculado com base no valor presente dos pagamentos futuros.
O efeito é relevante: a empresa passa a apresentar ativos e passivos relacionados aos contratos de arrendamento que antes não apareciam dessa forma no balanço.
A mudança também afeta os indicadores de desempenho. Como a despesa de aluguel é substituída, na demonstração do resultado, por depreciação do ativo de direito de uso e despesa financeira sobre o passivo, o EBITDA tende a aumentar em comparação com a apresentação anterior.
Por isso, bancos, investidores e analistas precisam considerar a mudança de metodologia ao comparar períodos ou empresas.
Considere agora uma empresa de tecnologia que vende uma licença de software por R$ 120 mil, incluindo 12 meses de suporte.
Pela IFRS 15 (CPC 47), a empresa precisa identificar as diferentes obrigações de desempenho previstas no contrato e determinar quando cada uma delas é satisfeita.
Suponha que, na alocação do preço da transação, R$ 90 mil correspondam à licença e R$ 30 mil ao serviço de suporte.
Se os critérios para reconhecimento da receita forem atendidos na entrega da licença, os R$ 90 mil poderão ser reconhecidos nesse momento. Já os R$ 30 mil relacionados ao suporte serão reconhecidos ao longo dos 12 meses de prestação do serviço, em aproximadamente R$ 2,5 mil por mês, desde que essa seja a forma adequada de representar a transferência do serviço ao cliente.
O resultado é uma receita que acompanha a efetiva transferência dos bens ou serviços, em vez de simplesmente considerar a data de assinatura ou faturamento do contrato.
Essa diferença pode ser especialmente relevante em empresas que trabalham com contratos de longo prazo, assinaturas, serviços combinados e modelos de receita recorrente.
Imagine uma distribuidora com R$ 1 milhão em contas a receber de clientes.
Em modelos baseados exclusivamente em perdas já identificadas, o reconhecimento da perda poderia ocorrer somente depois que determinados sinais de inadimplência surgissem.
Com a IFRS 9 (CPC 48), entra em cena o modelo de perdas de crédito esperadas. A empresa deve considerar informações históricas, condições atuais e, quando aplicável, informações prospectivas para estimar as perdas de crédito.
Se os dados disponíveis indicarem uma perda esperada de 3% sobre determinada carteira, por exemplo, a empresa poderá reconhecer uma provisão de aproximadamente R$ 30 mil, observados os critérios e metodologia aplicáveis.
A lógica é antecipar o reconhecimento do risco de crédito, permitindo que as demonstrações financeiras reflitam uma estimativa mais atualizada dos valores que efetivamente poderão ser recebidos.
A evolução das normas internacionais não se limita aos critérios tradicionais de reconhecimento e mensuração contábil.
A agenda regulatória também passou a incorporar informações relacionadas à sustentabilidade e aos riscos climáticos. As normas IFRS S1 e IFRS S2, desenvolvidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), estabelecem requisitos para divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e ao clima.
No Brasil, a Resolução CVM 244/2026 alterou as regras e tornou voluntário o reporte de sustentabilidade e clima alinhado aos padrões do IFRS S1 e S2 do Brasil, conforme o cronograma regulatório vigente.
Outra mudança relevante é a IFRS 18, que introduz novos requisitos para a apresentação e divulgação das demonstrações financeiras, especialmente da demonstração do resultado. A norma terá aplicação para períodos anuais iniciados em 1º de janeiro de 2027, com adoção antecipada permitida.
Essas mudanças mostram que a contabilidade internacional continua evoluindo e ampliando o nível de informação disponível para investidores e demais usuários das demonstrações financeiras.
Os exemplos mostram que as IFRS não são apenas um conjunto de regras técnicas para o fechamento contábil. Elas podem influenciar indicadores financeiros, reconhecimento de receitas, mensuração de ativos e passivos, avaliação de riscos, decisões de crédito e até métricas utilizadas em contratos e planos de remuneração variável.
Por isso, dominar a contabilidade em IFRS deixou de ser uma competência restrita às grandes empresas de auditoria. Contadores, controllers, analistas financeiros e profissionais envolvidos na gestão empresarial também precisam acompanhar a evolução das normas e entender seus efeitos práticos.
Mais do que saber qual norma aplicar, o desafio está em compreender como cada regra altera os números da empresa e o que essas mudanças significam para quem toma decisões a partir das demonstrações financeiras.