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“O Agente Secreto” chega ao Oscar neste domingo (15) com indicações em quatro categorias —melhor filme, filme internacional, direção de elenco e ator, para Wagner Moura—, uma a mais do que “Ainda Estou Aqui” no ano passado, igualando o recorde de “Cidade de Deus” em 2004.
O longa de Kleber Mendonça Filho, no entanto, alcançou apenas a metade do público do de Walter Salles nas salas de cinema brasileiras. Embora isso pareça um sinônimo de fracasso nas bilheterias, os dados recentes de arrecadação indicam que não é bem assim.
“O Agente Secreto” está muito acima da média de público e bilheteria das produções brasileiras dos últimos anos, e “Ainda Estou Aqui” se mostrou um ponto fora da curva da realidade atual do cinema brasileiro.
Até o último domingo, dia 8 de março, o longa de Mendonça Filho levou 2,4 milhões de pessoas ao cinema no Brasil, enquanto “Ainda Estou Aqui” havia alcançado 5,1 milhões de espectadores até o domingo anterior ao Oscar de 2025. No total, chegou à marca de 5,8 milhões de espectadores até sair de cartaz.
Como aconteceu com o filme protagonizado por Fernanda Torres, “O Agente Secreto” ainda pode ter uma nova leva de público impulsionada pela premiação. A análise da Folha considera dados semanais de bilheteria informados pelas distribuidoras à Ancine, a Agência Nacional de Cinema.
“Ambos os filmes são fenômenos, e é difícil a comparação. Sem fazer juízo de valor, ‘Ainda Estou Aqui’ é feito para chorar, tem cenas muito reconhecíveis pelo público. Já ‘O Agente Secreto’ começa com uma anormalidade. É mais difícil de assimilar. Mas os dois filmes são incrivelmente sedutores e muito bem sucedidos”, diz o diretor, crítico e programador Cláudio Marques.
“O Agente Secreto” já é o sétimo maior filme nacional em público desde 2018, início da série histórica do SCB, o Sistema de Controle de Bilheterias. É uma posição que demonstra seu sucesso diante do domínio das produções estrangeiras nas salas nacionais, que hoje ultrapassam 90% do total de ingressos vendidos.
“Ainda Estou Aqui” aparece em terceiro lugar no mesmo ranking, atrás apenas do religioso “Nada a Perder”, de 2018 —que teve público de 11,6 milhões de pessoas inflado com ingressos doados pela Igreja Universal—, e da comédia “Minha Mãe É uma Peça 3”, do ano seguinte, protagonizada pelo humorista Paulo Gustavo, que levou 11,5 milhões ao cinema.
Se nas últimas décadas já não era fácil para os filmes nacionais ultrapassar a marca do milhão, as mudanças no pós-pandemia dificultaram ainda mais a tarefa.
Além de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, só quatro obras tiveram público desta grandeza desde o chacoalhão que a pandemia deu no parque exibidor —”O Auto da Compadecida 2″, com 4,4 milhões, “Minha Irmã e Eu”, com 2,3 milhões, “Os Farofeiros 2”, com 1,9 milhão, e “Nosso Lar 2”, com 1,6 milhão.
“As salas ainda estão fragilizadas, não se recuperaram completamente. A gente está lidando com ocupação entre 50% e 60% do público de antes. Nem as comédias populares brasileiras estão funcionando como funcionavam. O streaming veio com muita força e mudou o hábito de boa parte da população”, diz Marques, exibidor do Cine Glauber Rocha, em Salvador.
Na avaliação de Marques, as campanhas internacionais bem-sucedidas de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” em festivais e premiações, além das boas críticas que os filmes receberam, tiveram reflexo positivo nas salas nacionais, furando a bolha do público mais intelectualizado e politizado.
“Além das qualidades artísticas, souberam lidar com o marketing e divulgação de maneira extraordinária. A junção do Wagner [Moura], ator extremamente carismático e popular, com o Kleber, que tem domínio do circuito dos festivais, faz com que o filme já comece muito forte em Cannes. E vai conquistando mais energia”, diz Marques.
“‘Ainda Estou Aqui’ também teve campanha muito forte, que gerou uma onda positiva no Brasil, a cada momento que saía uma matéria falando da Fernanda Torres indicada ao Oscar, por exemplo.”
Além de melhor filme internacional, melhor direção de elenco e melhor ator, “O Agente Secreto” em melhor filme, ao lado de “Bugonia”, “F1: O Filme”, “Frankenstein”, “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, “Uma Batalha Após a Outra”, “Marty Supreme”, “Valor Sentimental”, “Pecadores” e “Sonhos de Trem”.
O longa de Mendonça Filho foi o mais visto no Brasil entre os indicados, ficando bem à frente, inclusive, de “F1” e “Pecadores”, produções de Hollywood com orçamento muito superior. O levantamento considera dados da Ancine atualizados até domingo (8).
Público dos indicados a melhor filme