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A Resia foi criada em 2012, na Flórida, por empresários liderados por Rubens Menin, fundador e acionista da MRV Foto: Resia/Divulgação
O balanço da MRV&CO mostrou como saiu cara a empreitada do grupo nos Estados Unidos. Em 2019, o a companhia internacionalizou suas operações, com investimentos pesados, mas o lucro esperado nunca se concretizou. Em vez disso, a conta foi parar no vermelho. E em dólar.
A MRV&CO – conglomerado de empresas imobiliárias com MRV, Urba, Luggo e Resia – teve prejuízo líquido consolidado de R$ 626,3 milhões no segundo trimestre, conforme balanço divulgado na noite de quarta-feira, 12.
O que mais pesou foi o resultado da Resia, subsidiária que faz a construção de edifícios e a locação dos apartamentos nos EUA. Depois que o condomínio está cheio de inquilinos, a empresa vende o empreendimento inteiro para investidores que buscam dividendos com aluguéis. O objetivo da Resia era ganhar dinheiro com a venda dos imóveis e com a permanência à frente da administração dos apartamentos.
A Resia (antigamente chamada American Housing Solutions, AHS) foi criada em 2012, na Flórida, por um grupo de empresários liderado por Rubens Menin, que também é o fundador e acionista de referência da MRV. Em 2019, o negócio foi comprado pela MRV em troca do compromisso de investimentos na ordem de US$ 230 milhões.
O plano inicial previa ampliar a produção anual de 700 de apartamentos para até 24 mil ao longo de dez anos, espalhando os projetos pela Flórida, Georgia, Texas e além. Em conversa com investidores na pré-venda para a MRV, Menin classificou o negócio como uma “chance de ouro”, tendo em vista os potenciais ganhos de escala.
Em 2022, a MRV&CO chegou a contratar o BTG Pactual e o Bank Of America (BofA) para buscar sócios com intuito de ajudar a financiar o plano de expansão da Resia, mas o processo acabou paralisado alguns meses depois. A inflação e os juros começaram a subir nos EUA, desestimulando investidores.
Sem sócios, a Resia passou a financiar seus projetos com a tomada de dívida e com a expectativa de venda futura dos empreendimentos que estavam em obras. Confiante no negócio, o grupo abriu em 2023 uma fábrica própria de pré-moldados, como banheiros, cozinhas e lavanderias, para instalação diretamente nos canteiros de obras. É o tipo de investimento que exige um grande número de obras para valer a pena.
Mas então os problemas se acumularam. A inflação e os juros nos EUA seguiram altos, enquanto a Resia errou a mão em alguns projetos. Houve casos em que a companhia demorou para achar inquilinos, pois os prédios foram erguidos em locais onde já havia muita oferta de moradias. Isso fez o aluguel ficar abaixo do previsto, assim como o preço final de venda, que também demorou mais a sair. A dívida da Resia cresceu até chegar a um nível insustentável, marcando US$ 745 milhões no fim de 2024 – algo como R$ 4 bilhões.
Então, a MRV&CO começou a recuar no sonho americano. O grupo decidiu reduzir os lançamentos, acelerar a venda dos empreendimentos e se desfazer de mais da metade do seu estoque de terrenos nos EUA. Mas o mercado norte-americano seguiu adverso, com pouco apetite de investidores por esse tipo de negócio. Em 2025, o grupo comandado pela família Menin começou a liquidar os ativos para gerar caixa e enfrentar a dívida. Ainda havia esperança em voltar a investir na Resia em algum momento no futuro. Já em 2026, veio a decisão de fechar as portas de vez.
No ano passado, o grupo perdeu US$ 144 milhões com baixa contábil (impairment, ou venda abaixo do valor patrimonial) e neste mês, reportou outra perda do mesmo tipo, no valor de US$ 110 milhões. Somando as duas, o prejuízo com a empreitada nos EUA gira na ordem de R$ 1,3 bilhão a R$ 1,4 bilhão.
“Priorizamos caixa em relação ao valor do ativo”, explicou o copresidente da MRV&CO, Rafael Menin, em teleconferência com investidores e analistas nesta quinta-feira, 13. “Deixamos dinheiro na mesa, mas teremos geração de caixa”, defendeu. Só neste ano, as vendas de ativos da Resia levantaram US$ 400 milhões, o que vai se traduzir em cerca de R$ 1,5 bilhão para o caixa da MRV&CO (descontando despesas). Com isso, a dívida líquida do grupo vai baixar de R$ 5,9 bilhões para R$ 4,6 bilhões.
“Vendemos em condições de mercado piores do que o imaginado. Não conseguimos recuperar valores com juros e despesas de projetos. Mas o racional aqui é ser bastante pragmático, optando por desalavancar mais rápido”, afirmou o diretor Financeiro e de Relações com Investidores da MRV&CO, Ricardo Paixão, em entrevista.
Pela frente, a Resia tem ativos remanescentes para venda avaliados no balanço em US$ 370 milhões. Entram aí um último empreendimento próprio (Golden Glades, em Miami), terrenos, participações e a fábrica de pré-moldados. As vendas devem se estender até 2028. Alguns ativos podem ser vendidos abaixo do valor patrimonial, enquanto outros podem gerar algum lucro, segundo a direção. “Continuamos na linha de buscar uma forte venda de ativos para reduzir o impacto no balanço, até chegar num ponto em que a operação [Resia] será descontinuada”, acrescentou Paixão.
Antes da Resia, a MRV chegou a valer R$ 9 bilhões na Bolsa, em 2019. Hoje, seu valor de mercado está em R$ 2,7 bilhões.
A principal divisão de negócios do grupo continua sendo a MRV, especializada em moradias populares, dentro do Minha Casa Minha Vida (MCMV). A empresa teve lucro líquido ajustado de R$ 155 milhões no segundo trimestre, alta de 28,2% ante o mesmo período do ano passado. A MRV tem mostrado aumento das vendas de imóveis, melhora da margem e evolução das obras. A produção anual está em torno de 40 mil apartamentos, espalhada por 90 cidades.
Esta notícia foi publicada na Broadcast+ no dia 13/08/2026, às 18:11
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