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Eleição colombiana mostra como avanço de cartéis e polarização fortalecem ‘modelo Bukele’ na região

Eleição colombiana mostra como avanço de cartéis e polarização fortalecem ‘modelo Bukele’ na região

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Eleição na Colômbia mostra força do discurso outsider e antipolítica

Crédito: Produção: Beatriz de Souza/Imagem e som: Felipe Oliveira (Felps)

A vitória do advogado Abelardo De La Espriella, um populista de direita, diante do candidato de esquerda Iván Cepeda nas eleições colombianas do domingo, 21, reflete, para analistas ouvidos pelo Estadão, o encantamento do eleitorado conservador com propostas mais duras para combater a violência na América Latina, inauguradas na região pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

Esse sucesso, dizem os especialistas, se deve à desilusão dos eleitores com a direita tradicional e à globalização de cartéis criminosos do continente, que passaram a atuar em mais de um país.

De la Espriella foi o candidato mais votado no primeiro turno, com 43,7%, ultrapassando Cepeda e a candidata da direita tradicional do país, Paloma Valencia. O candidato chama atenção por usar um discurso similar ao Bukele, com grande foco em segurança pública e no uso da coerção contra a criminalidade.

José Manuel Restrepo (à esquerda), do movimento Defensores da Pátria, discursa para apoiadores ao lado de Abelardo de la Espriella, atrás de um vidro à prova de balas Foto: Juan Barreto / AFP

Como outros candidatos de direita radical que tiraram espaço de nomes mais tradicionais no Chile, Costa Rica e na Argentina, a vitória de Espriella foi uma surpresa. Segundo Eduardo Mello, vice-diretor do Departamento de Relações Internacionais da FGV, o resultado é efeito de uma insatisfação com as políticas de Gustavo Petro e com a posição da direita tradicional em relação ao combate à criminalidade.

“A bandeira forte da direita historicamente sempre foi a ideia da mano dura no combate a guerrilhas radicais. Isso tem saído do holofote da direita tradicional em meio ao processo de paz na Colômbia”, explica o professor.

Segundo ele, isso abre espaço para que novos políticos contestem o acordo de paz com as as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), lançado ainda no governo de Juan Manuel Santos (2010-2018), e impulsionado por Petro, que propôs a “Paz Total” com dissidentes da guerrilha e com o Exército de Libertação Nacional (ELN).

Hoje, os dois grupos atuam na região de Catatumbo, perto da fronteira com a Venezuela, e são responsáveis por um novo pico de violência no país.

Ainda de acordo com o acadêmico da FGV, outro ponto importante, é o papel do tráfico internacional na crise de insegurança dos países da região.

“É um fenômeno relacionado à globalização do crime, porque os grupos criminosos estão alcançando mercados que trazem recursos que eles nunca tiveram antes”, diz.

Sensação de insegurança

O processo de internacionalização do crime tem afetado outros países da região que não são produtores de drogas como a cocaína e que tradicionalmente têm uma criminalidade menor, como é o caso do Chile e da Costa Rica, explica Mello. O Chile também elegeu o “outsider” José Antonio Kast em 2025, que já havia chegado ao segundo turno nas eleições anteriores, afirmam os especialistas.

No caso desses dois países, “são níveis de criminalidade muito abaixo do que quem é de grandes cidades brasileiras está acostumado, por exemplo, mas o que importa é essa percepção de mudança da segurança entre a população”, afirma.

Um exemplo da internacionalização do crime é a gangue venezuelana Tren de Aragua, que já atua no Brasil, entre outros países sul-americanos. Outros são o PCC e o CV, que já atuam em países vizinhos, como o Paraguai e a Bolívia, além dos próprios cartéis colombianos que se infiltraram no Equador, ampliando a violência relacionada ao narcotráfico no país.

Um homem lê o jornal com a foto do presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, em Barranquilla, Colômbia, em 22 de junho de 2026, um dia após o segundo turno das eleições presidenciais Foto: Jaime SALDARRIAGA / AFP

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O modelo de El Salvador, chama a atenção na região porque além do funcionamento das megaprisões, as taxas de homicídio são baixas. Segundo o governo salvadorenho, chegaram a 1,3 caso por 100 mil habitantes em 2025. O número está muito abaixo da média latino-americana atual, de 17,6 assassinatos a cada 100 mil habitantes, segundo a organização InSight Crime.

Os dados, no entanto, são questionados, já que o país não revela o número de mortes de supostos criminosos em ações policiais e a checagem da contagem oficial foi dificultada nos últimos anos. Segundo Mariana Chies-Santos, professora do Insper e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, a falta do devido processo legal e acesso a julgamento dos encarcerados do país são pontos problemáticos do plano de Bukele.

Antes mesmo da vitória de Espriella, o modelo Bukele já vem sendo adotado em outros países da região, como a Costa Rica e o Equador.

Colômbia escolhe um novo presidente

Colombianos vão às urnas em 31 de maio no primeiro turno das eleições para suceder Gustavo Petro. Crédito: Reportagem: Carolina Marins; Edição: Amanda Dantas

Insatisfação com a política tradicional

Pedro Dallari, professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), explica que os países latino-americanos têm diferenças estruturais, históricas e relacionadas ao funcionamento do crime organizado em seus territórios.

Entretanto, um pano de fundo pode ser associado à maioria dos países da região, segundo o professor: a sensação, entre a população, de que as alternativas comuns, de esquerda ou de direita, se tornaram incapazes de resolver problemas decorrentes da desigualdade, da dívida, da vulnerabilidade social e da segurança pública.

Assim, em meio a crises, “começam a surgir alternativas chamadas de outsiders e a vontade de respostas mais rápidas e diferentes das anteriores”, explica Dallari.

Fonte do Artigo
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Corinthia Mes

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