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É um raciocínio simples, se há seca é porque em algum momento faltou chuva. Quando não faltou, significa que algo está fora da ordem. Na Europa, assolada por uma série histórica de ondas de calor e secas nesta temporada, tal desordem tem nome: mudança climática.
Um estudo de atribuição publicado nesta quarta-feira (22) mostra que a seca no solo agrícola da Europa Ocidental ficou cinco vezes mais provável com o aquecimento global, provocado sobretudo pela queima de combustíveis fósseis. Na Europa Oriental, onde a seca já dura seis meses, a probabilidade da condição ocorrer está 11 vezes maior.
Já o atual potencial de evaporação impulsionado pelo forte calor da temporada se tornou 80 vezes mais provável de ocorrer no oeste do continente e 40 vezes no leste. A variável, conhecida pela sigla em inglês PET, mede a “sede” da atmosfera ou de sua capacidade de evaporar umidade. É ela que denuncia a responsabilidade da atividade humana no extremo climático vivido no continente nesta temporada.
“O clima da Europa está mudando rapidamente. Embora os padrões de chuva continuem variados, nossas descobertas mostram que o calor extremo está se tornando o principal fator causador da seca em nosso continente”, diz Sarah Kew, cientista do clima do Serviço de Meteorologia da Holanda.
Com outros 11 colegas, a especialista participa da análise do World Weather Attribution (WWA), liderada pelo Imperial College, de Londres, que apura o grau de responsabilidade da crise climática sobre eventos extremos logo que eles acontecem.
Mesmo na Europa Oriental, em que o verão foi precedido por déficit de precipitações, as condições verificadas neste ano não teriam provocado uma seca tão grave em um planeta 1,4°C mais frio, o parâmetro da era pré-industrial utilizado nos modelos climáticos.
O problema é que a onda de calor mais severa da história do continente, também provocada pela mudança climática, conclusões de outros estudos recentes do WWA, está sugando a umidade do solo com antecipação e velocidade incomuns.
“O que normalmente acontece no inverno e também na primavera é que não há tanta evaporação; há bastante precipitação, o que ajuda a carregar os solos com água”, explica Dominik Schumacher, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique. “Foi isso que aconteceu no início deste ano na Península Ibérica e em partes da França.”
A partir de abril, porém, uma série de sistemas de alta pressão levou a um tempo bastante quente, ensolarado e seco na região. “Condições que começaram bastante úmidas e depois passaram a ser muito, muito secas, principais ingredientes para uma temporada extrema de queimadas.”
Espanha e França combatem incêndios florestais há semanas, que já consumiram neste ano 116 mil e 42 mil hectares, respectivamente, nos dois países.
Mais ao leste, a história foi um pouco diferente, pondera o pesquisador. “Os níveis de águas subterrâneas e dos rios já estavam bastante baixos, mesmo antes da chegada do calor. Na Áustria, 90% das réguas nos rios indicavam níveis abaixo da média em maio.”
E tudo isso acontecendo bem mais cedo no ano. “Na Suíça, medições de umidade de solo se assemelham às de agosto de 2022, quando também teve seca. Só que agora alcançamos esses números em junho, com metade do verão ainda pela frente.”
O estudo do WWA não encontrou evidências de que a mudança climática alterou o ritmo das chuvas nesta temporada. O potencial de evaporação, por outro lado, foi fortemente alterado pelo aquecimento global. A Europa é o continente que mais rapidamente aquece no planeta.
A lista de estragos no ano é enorme. Nesta quarta-feira, as autoridades franceses atualizaram o número de mortes em excesso de 17 de junho a 2 de julho, auge da onda de calor no país: 5.764 óbitos. O próprio governo lembrou que é o maior saldo provocado pelas altas temperaturas desde 2003, quando uma canícula histórica matou 70 mil pessoas na Europa, 15 mil delas na França.
Além das perdas humanas, o continente já registra quebras de safra, transporte fluvial prejudicado, restrições no abastecimento de energia e no uso de água pela população. Metade da produção francesa de milho foi perdida, assim como um milhão de hectares de terras agrícolas na Romênia.
Citado pelo estudo, Simon Stiell, chefe do clima da ONU, afirma que o agravamento das secas é um “alerta vermelho” que não pode ser ignorado. “Até que a humanidade pare de queimar enormes quantidades de carvão, petróleo e gás, essas secas brutais causadas pelas mudanças climáticas apenas ficarão mais severas e mais onerosas.”
Stiell repetiu seu apelo por uma adoção rápida das energias renováveis, “que hoje são mais baratas do que os combustíveis fósseis poluentes”. Os autores do estudo pedem também que os planos de prevenção e manejo de secas na União Europeia sejam padronizados e se tornem compulsórios em todos os 27 Estados-membros do bloco.
Fonte do Artigo
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