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As indústrias paranaenses exportadoras de produtos de madeira para os Estados Unidos ensaiavam uma recuperação quase um ano após os impactos negativos do tarifaço de 50% imposto pelos norte-americanos, em agosto de 2025. Contudo, uma nova tempestade ameaça o setor: uma tarifa adicional que encarece em 25% os produtos brasileiros. O segmento se mobiliza para tentar evitar a cobrança, prevista para entrar em vigor no dia 15 de julho.
Sob a alegação de “práticas desleais”, o Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) propôs a aplicação da nova tarifa, que será somada aos 10% remanescentes do primeiro tarifaço e às taxas historicamente aplicadas a determinados produtos.
Diferentemente da tarifa do ano passado, baseada em uma decisão unilateral do presidente Donald Trump, a medida que se aproxima é fundamentada na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos e decorre de uma investigação. Antes de entrar em vigor, porém, a proposta passou por audiência pública nesta semana. É justamente nessa etapa que o setor tenta reverter a decisão.
“Estamos guiando a decisão por duas linhas: a de que o produto brasileiro é importante e viável para a economia norte-americana e a de que não competimos com a produção local. Também reforçamos que o produto brasileiro, quando taxado, fica mais caro e gera inflação”, explica Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), que está em Washington para acompanhar a audiência.
Embora as negociações sejam conduzidas pelo governo brasileiro, cada segmento produtivo preparou argumentos específicos para tentar evitar os impactos da nova tarifa. Dois empresários do setor falaram na audiência: Mário Santana, coordenador florestal, e Gian Carlo Marodin, do comitê de molduras da Abimci. As defesas por escrito foram protocoladas no dia 1º de julho.
O setor estruturou a defesa em seis frentes. Uma delas é mais ampla e trata do mercado brasileiro de produtos florestais. As outras cinco apresentam argumentos específicos para cada segmento: madeira serrada, portas, pisos, compensados e molduras. Os documentos detalham cada linha tarifária e consideram aspectos técnicos dos produtos, como participação no mercado local, tipos de uso e formas de importação.
“Se o Brasil vier a ser taxado em 25%, mesmo que seja menos, continua sendo ameaçado de sair do mercado porque perde a isonomia com os concorrentes. Essa é uma investigação somente contra o Brasil”, alerta Puppo. “Com essa diferença tarifária não existe comércio. O mercado desaba”, enfatiza.
Na avaliação dele, a competição com países do Sudeste Asiático e com vizinhos sul-americanos se tornaria impraticável. Mesmo com qualidade reconhecida e parcerias comerciais já estabelecidas com compradores, a nova taxa tornaria o custo inviável.
O setor madeireiro exportador detém certificações e trabalha com 100% de madeira reflorestada. Por isso, a defesa técnica pretende rebater uma das acusações apontadas na investigação norte-americana de que o Brasil falha no controle do desmatamento.
A defesa mostra que os dados apresentados no relatório da investigação estão defasados e que o país melhorou, em 2025, os índices de combate ao desmatamento, conforme dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Além disso, pretende esclarecer que toda a madeira utilizada nas fábricas é proveniente de florestas plantadas e possui manejo sustentável.
Os argumentos técnicos são robustos, mas o setor reconhece que existe um componente político que limita o avanço das negociações.
“Tem o lado técnico, de esclarecimento e de correção de informações erradas contra o país. É nesse lado que a defesa está pautada, mas não podemos negar que existe uma questão política”, afirma Pupo.
Os acenos entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente norte-americano, Donald Trump, não se refletiram em avanços práticos, na avaliação do setor. Um grupo de trabalho chegou a ser criado, mas não funcionou.
“Por isso, reiteramos o pedido para que o governo brasileiro priorize as negociações com os Estados Unidos, utilizando todas as vias diplomáticas e comerciais disponíveis para evitar a implementação dessas medidas, assegurando isonomia tarifária e preservando a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano”, apelou a Abimci em nota divulgada nesta sexta-feira (3).
Diversos segmentos da construção civil dos Estados Unidos — do assoalho ao telhado, passando pela indústria moveleira — têm nos produtos da indústria madeireira paranaense seus principais fornecedores. Com presença consolidada nesse mercado há décadas, as fábricas do Estado começaram a recuperar as vendas após o impacto do tarifaço de 50%, posteriormente reduzido para 10%, o que permitiu uma reação das exportações.
“O mercado começou a andar, começou a comprar, começamos a voltar a produzir, mas ainda é um mercado muito difícil, com preços abaixo do custo”, disse à Tribuna do Paraná o empresário Marcelo Antonelli, CEO da Repinho, empresa exportadora de Guarapuava.
Embora a madeira paranaense tenha sido exportada para 80 países em 2025 e 2026, os Estados Unidos continuam sendo o principal destino dos produtos do setor. Por isso, as tarifas impactam tanto esse segmento. O país responde por 50% de todas as vendas brasileiras do setor para o exterior. Somente o Paraná exportou US$ 432,2 milhões em 2025, o equivalente a 40% do total nacional, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Os valores exportados mês a mês em 2025 deixam claros os efeitos da tarifa. Em agosto, as vendas iniciaram uma sequência de quedas que perdurou até março de 2026. Novembro registrou o menor volume exportado, com US$ 11 milhões em encomendas.
A partir de abril deste ano, os números mostram uma retomada para patamares semelhantes aos registrados antes da tarifa. No mesmo período, as vendas para outros países não apresentaram elevação significativa, evidenciando a dependência de alguns segmentos em relação ao mercado norte-americano. Na prática, os exportadores conseguiram manter os demais mercados — principalmente o europeu —, mas não ampliaram as vendas o suficiente para compensar a redução da demanda dos Estados Unidos.
Outro efeito do primeiro tarifaço, segundo Antonelli, foi a substituição de produtos, o que pode dificultar a recuperação do mercado. No caso das placas de compensado, utilizadas na construção de casas, embalagens e móveis, materiais como polímeros sintéticos e madeira reconstituída (MDF, por exemplo) passaram a ocupar parte desse espaço.
A origem destes produtos é principalmente o Sudeste da Ásia, onde as fábricas são altamente tecnológicas e produtivas, tornando a disputa de mercado altamente competitiva.
Em um cenário de retomada, um novo tarifaço é ainda mais temido pelos empresários, sobretudo porque a taxação poderá ser exclusiva para o Brasil e tornar o produto nacional mais caro que o dos concorrentes.
“O mercado vai dizer como as coisas vão acontecer. As duas ou três primeiras semanas de vigência da tarifa talvez sejam um sinal de que vai ou não andar e, conforme as coisas forem acontecendo, nossas decisões terão de ser rápidas”, afirmou Antonelli. Para ele, a capacidade de reação será determinante. “Quem consegue agir de forma rápida consegue se sobressair.”
Outro impacto que pode ser sentido pelo país, caso as novas tarifas sejam implementadas, é no mercado de trabalho. O setor emprega mais de 180 mil pessoas no Brasil, sobretudo no Sul do país, que concentra 95% da produção nacional.
No Paraná, 11 meses após o primeiro tarifaço do governo norte-americano, a indústria da madeira já perdeu 2.416 empregos (saldo entre agosto de 2025 e abril de 2026), segundo dados do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
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