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A mulher de 37 anos, presa em Santa Catarina (SC) após se passar por uma adolescente de 12 anos, pode ter aplicado golpes também no Paraná. A suspeita é de uma professora de Curitiba, que passou dez meses interagindo online com a golpista, que mentia ter 13 anos.
A educadora a reconheceu por fotos, expostas na mídia após a prisão, e pela voz e forma infantilizada de falar, comparando áudios enviados a outra vítima, identificada pela polícia no Rio de Janeiro.
No Paraná, uma investigação sobre o caso foi aberta em 2022, na Delegacia de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, após notícia-crime apresentada pela professora e outras 12 vítimas, que se envolveram emocionalmente com a suposta menina em um grupo online de orações, chegando a fazer pix para ajudá-la.
O inquérito, porém, não avançou e agora as vítimas pedem que seja retomado. “O caso ainda está aberto, não foi arquivado, apesar da tentativa. Com essas novas informações dos últimos dias, estamos confiantes”, diz Caroline Rangel advogada do grupo.
O delegado Rodrigo Gusso, que prendeu a suspeita em SC, falou à Tribuna que, apesar dela ter confessado os crimes naquele estado, não mencionou nenhum no Paraná. “Mas não descartamos, pois ela vivia na Região Sul.”
Outro indício sobre a passagem da mulher pela capital paranaense é um atendimento realizado no Hospital Pequeno Príncipe, em novembro de 2020, no qual uma suposta criança foi encaminhada pela rede de proteção municipal e avaliada pela equipe multidisciplinar do hospital.
“Diante da ausência de documentação oficial que permitisse a confirmação de informações cadastrais e pessoais, os órgãos competentes foram acionados para os encaminhamentos cabíveis”, informou, em nota, o Pequeno Príncipe, sem comentar mais detalhes sobre o atendimento.
A relação entre a golpista e a professora começou em março de 2021, durante a pandemia, quando a educadora perdeu a cunhada, grávida, para Covid-19. Em um grupo de orações católicas, ela procurou apoio. Foi lá que Emily apareceu, online, via whatsapp. Esse era o nome que a golpista usava, dizendo ser uma criança com câncer de medula óssea, com os dias contados.
O caso comoveu a todos, e pegou a professora pelo coração. Ela foi atrás da mãe da menina – que na verdade era a própria golpista – e começou uma relação que tomou proporções inesperadas.
O contato entre elas se tornou diário. A menina se comunicava por texto e vídeos, com um programa de filtro de imagens, e entrava nas reuniões online, via Meet, para rezar o terço em grupo, sempre pedindo pela vida. A educadora conta que a cada dia chegavam notícias novas e tristes. A história era tão bem contada, e emotiva, que não gerava desconfiança. “Ela nunca tinha pedido dinheiro antes, por isso acreditei”, diz a professora, que preferiu não se identificar.
No conto, a menina estava internada em um hospital de Brasília, período em que a mãe morreu atropelada. Foi quando o pai, até então sumido, reapareceu e passou a ficar com a criança, que nunca saiu do hospital. Logo veio uma suposta tentativa de assédio do pai, que foi preso. Na prisão, teria se suicidado. Restou à menina a avó paterna. “A história era muito bem articulada, um belo roteiro. Ela criava os personagens todos, falava por eles, tinha uma personalidade para cada um”, lembra.
A professora reconhece que, pela perda familiar e a pandemia, estava abalada emocionalmente, muito frágil para enxergar a verdade. O apego foi tão grande que ela aceitou o convite para ser madrinha da suposta adolescente, fazendo homenagens, cartazes, camisetas, vídeochamadas em dias especiais.
Emily participava de tudo, como parte da família. “Era carente de atenção, queria a gente sempre perto. Era um jogo de cobrança, uma exigência de carinho. Fiz até uma tatuagem no pulso com o nome dela.”

A mestra em educação diz se sentir envergonhada por ter caído no golpe, que a levou a escrever uma carta para então primeira-dama, Michele Bolsonaro, pedindo ajuda – que nunca veio. A capacidade de manipulação da golpista, reforçando sempre o câncer em estágio avançado, era profissional. “No dia que ela mentiu que o pai doou medula e deu certo, andamos 15 quilômetros até o Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro para agradecer.”
Pouco tempo depois, no entanto, Emily avisou que o câncer tinha voltado e que seu braço havia sido amputado. Foi então que algumas pessoas do grupo começaram a desconfiar. As suspeitas se agravaram quando, por fim, a menina resolveu pedir dinheiro. “Ela disse que ia morrer, mas antes queria ajudar outra criança que necessitava, e pediu que enviássemos doações por pix. Então o pessoal decidiu ir atrás do hospital que ela dizia que estava e descobriram que não havia nenhuma Emily.”
O choque foi grande. “Eu já estava em processo terapêutico pela perda da minha cunhada, que era uma irmã pra mim. Emendei um trauma no outro, uma dor na outra”, fala a vítima, que não esperava mais ter notícias da criminosa; até esta semana. Ao analisar as fotos publicadas pela mídia, a história contada e também áudios de outra vítima, no Rio de Janeiro, com quem passou a se comunicar, teve certeza de que é a mesma mulher. “É a mesma voz. E usava os mesmos nomes pra família que usava pra ela, assim como os casos de abusos sexuais. Ela precisa ficar na cadeia, pois consegue enganar qualquer um.”
Ao ser presa em SC, a suspeita confessou ter mentido para uma família de Joinville por mais de um ano, período em que foi acolhida como filha adolescente, ganhando quarto e festa de aniversário de 13 anos.
“Para sustentar o disfarce ao longo desse período e ganhar a confiança, alegava falsamente ser portadora de autismo e de outras condições clínicas. Ela justificava sua aparência física adulta argumentando que seus traços eram decorrentes do uso forçado de hormônios durante a infância. Além disso, para reforçar o papel de criança, a suspeita mantinha comportamentos infantilizados, utilizando rotineiramente chupetas, mamadeiras e objetos lúdicos”, revela a Polícia Civil catarinense, que confirmou antecedentes criminais dela por golpes idênticos em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Goiás, onde uma prisão contra ela foi decretada.
O Ministério Público de Santa Catarina confirma que, de acordo com as investigações, a forma de agir da mulher envolvia aproximação de instituições religiosas ou famílias, sempre explorando narrativas de vulnerabilidade para conquistar confiança e obter vantagens materiais.
“A conduta da indiciada revelou elevado grau de reprovabilidade, periculosidade social e frieza na execução do delito, mediante a instrumentalização de sentimentos de caridade, empatia e afeto para a obtenção de vantagem ilícita”, fala a promotora Bruna Gonçalves Gomes.
Indiciada por estelionato e falsidade ideológica, a mulher está presa no Presídio de Joinville. Seu advogado, nomeado pela Defensoria Pública, diz que um exame de sanidade mental foi solicitado e a avalição da condição psíquica da mulher deve acontecer em breve. “A defesa aguarda a conclusão da perícia técnica, que poderá contribuir para o adequado esclarecimento das circunstâncias relacionadas ao caso e para a adoção das medidas processuais cabíveis”, pontua Rafael Luiz Siewert.
Fonte do Artigo
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