Newsletter Subscribe
Enter your email address below and subscribe to our newsletter
Enter your email address below and subscribe to our newsletter





Uma apuração da BBC Global Disinformation Unit encontrou mais de 80 mortes ligadas a boatos sobre o chamado “roubo de genitais” que se espalharam pelas redes sociais entre outubro de 2025 e julho de 2026. Os rumores afirmavam que um toque no ombro poderia fazer o órgão genital masculino encolher ou desaparecer, e levaram a agressões em massa em vários países africanos.
Os episódios envolveram linchamentos, ataques a profissionais de saúde e a outros civis, vídeos verificados pela BBC que continuam circulando e pedidos públicos de autoridades para conter a desinformação.
Em Tunduma, cidade Tanzanian na fronteira com a Zâmbia, o mecânico Boniface Mgala relatou ter sido arrastado para fora de um restaurante e espancado por uma multidão. "Gritavam que tínhamos roubado os genitais de alguém e não tínhamos como escapar porque havia uma enorme multidão", disse Mgala à BBC. Ele perdeu a consciência e acordou dois dias depois no hospital; seu amigo foi morto no ataque. Mgala hoje tem cicatrizes, dores de cabeça constantes e está afastado do trabalho.
Outro testemunho citado pela BBC é o do fotógrafo e comerciante Michael Silavwe, que relatou ter visto um homem espancado e depois incendiado em Tunduma. A BBC verificou vídeos desses ataques, um dos quais teve mais de 100 mil visualizações no TikTok e no Facebook.
A onda recente parece ter começado no ano anterior na Republic Democratic do Congo e se espalhou para países como Burundi, Zâmbia, Tanzânia, Moçambique, Angola, Malawi e Quênia. Em Zâmbia, o boato ganhou força em março após o linchamento de uma mulher, segundo BBC.
Moçambique foi o país mais atingido: a polícia afirmou em maio que 55 pessoas foram mortas em um período de seis semanas, incluindo um policial, trabalhadores de saúde e funcionários públicos. As autoridades moçambicanas realizaram campanhas de informação pública e disseram não ter encontrado evidência médica de perdas de partes do corpo.
No Quênia, cinco pessoas foram mortas por multidões nas áreas costeiras de Kwale e Mombasa após relatos iniciados em julho. O comissário do condado de Mombasa, Mohamed Noor, culpou alguns criadores de conteúdo por espalharem as alegações com o objetivo de obter visualizações: “Desinformação desse tipo pode facilmente levar à perda de vidas”, disse ele à BBC. A polícia reportou ter contido a violência e efetuado prisões; um pai e um filho foram condenados a um ano de prisão após se declararem culpados de agredir uma mulher que acusaram de causar o desaparecimento de genitais.
Em Moçambique, o President Daniel Chapo condenou publicamente os boatos e as mortes, afirmando que as alegações eram falsas. O governo também vinculou parte do pânico ao transtorno conhecido como síndrome de Koro e promoveu campanhas de esclarecimento, após ataques que fecharam unidades de saúde em regiões afetadas, como Cabo Delgado.
Quanto às plataformas, a Meta disse à BBC que está revendo conteúdos compartilhados com a equipe de verificação e agirá quando houver violação de suas políticas. O TikTok não respondeu ao pedido de comentário citado pela reportagem. A BBC também apontou que criadores usam os relatos tanto para alertar quanto para obter engajamento, além de circularem ofertas de supostas proteções e esquetes cômicos que repercutem o tema.
Além do impacto mortal, os episódios deixaram sobreviventes com sequelas físicas e trauma, e comunidades em estado de ansiedade sobre o retorno de familiares às ruas. A BBC verificou gravações de ataques em diversos países e observou que muitas delas permanecem acessíveis nas redes sociais.
Fontes desta matéria: reportagem da BBC Africa e da BBC Global Disinformation Unit, publicada em 3 de setembro de 2026.